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Névoas de guerra

Para além de tudo o que gira em torno de factos históricos, o certo é que Putin marcou a agenda e impõe novos acordos, passando pela revisão do Tratado Start sobre o limite de ogivas nucleares ativas.

Em 1513, Maquiavel defendia que os diplomatas deviam estar sempre preparados para a guerra. Na época em que escreveu a sua obra mais conhecida, e a que deu por título O Príncipe, aquele pensador florentino, fundador da ciência política moderna, tinha toda a razão em afirmar: «Um príncipe não deve ter outro objetivo, outro pensamento, ou cultivar outra arte que não seja a da guerra».

Felizmente, a forma como os países hoje se relacionam mudou muito desde os tempos em que a península itálica do Renascimento não passava de uma manta de retalhos (manta de retalhos essa que se manteve até 1871), profundamente dividida em principados, grão-ducados, estados pontifícios e repúblicas que se guerreavam entre si, de acordo com os interesses do momento, não hesitando em recorrer a forças militares de reinos estrangeiros ou, então, ao concurso de mercenários para se imporem. A recomendação de Maquiavel era certa e realista num pântano político apenas movido por interesses de classe ou de casta, cujos chefes, por meras razões de sobrevivência, tinham de estar permanentemente em alerta máximo e, quando era o caso, a agir por todos os meios de acordo com os fins que os justificavam.

Se, nos séculos XVI e XVII, as relações entre os reinos eram escassas, os agentes diplomáticos de então, para além de refinados intriguistas, limitavam-se a informar os respetivos monarcas e a negociar em seu nome sobre assuntos pontuais, sobre acordos de paz, sobre as melhores alianças políticas ou, até, sobre casamentos reais mais oportunos, com vista a futuras anexações ou guerras. Os tempos de hoje, já se vê, são outros, exigindo aos agentes diplomáticos uma especialização técnica e um conhecimento aprofundado das relações internacionais. A diplomacia transformou-se num instrumento político de persuasão, numa arma de guerra, assente no exercício da dissuasão agressiva, em que, nos momentos de diálogo, o elemento militar permanece sempre sobre a mesa de negociações, com mensagens claras de pressão sobre os interlocutores.

Esta diplomacia de guerra adotada pela Rússia face à Ucrânia, onde desfilam a elite dos diplomatas/negociadores com a missão de encontrar uma forma de diminuir a tensão na fronteira russo-ucraniana, para onde Vladimir Putin enviou entre 100.000 a 127.000 soldados sob o pretexto de que a segurança do seu país se encontra ameaçada pela ocidentalização da Ucrânia e consequente entrada desta para NATO juntamente com a Geórgia.

Os EUA tomaram a dianteira nas negociações diretas com a experiente especialista em conflitos, Wendy Sherman, vice-secretária de Estado, autora, juntamente com Bill Clinton, dos acordos com a Coreia do Norte, a fim de interromper o fabrico de armas atómicas naquele país, além do pacto nuclear com o Irão durante a presidência de Barack Obama.

Wendy Sherman não exclui a futura incorporação da Ucrânia e da Geórgia na NATO, e joga com o direito internacional derivado dos Acordos de Helsínquia (negociações que duraram de julho de 1973 a agosto de 1975), dos quais nasceu a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), com os seus 57 países-membros, atualmente quase tão importante como a ONU.

Mas, para além de tudo o que gira em torno de factos históricos conhecidos, o certo é que Vladimir Putin marcou a agenda internacional e impõe novos acordos, passando pela revisão do Tratado Start sobre o limite de ogivas nucleares ativas, assinado em 2010 por Barack Obama e pelo presidente russo Dmitri Medvedev, Além disso, requer um «procedimento de transparência» para verificar a ausência de mísseis de cruzeiro Tomahawk, capazes de atingir o território russo, nas bases dos escudos antimíssil da NATO na Roménia e na Bulgária, países que detêm o sistema de defesa Aegis, e, por fim, exige a retirada de tropas da Bulgária, da Roménia e da Ucrânia.

Se assim não for teremos mísseis russos na Venezuela e em Cuba, territórios próximos dos EUA, a saída da Rússia da OSCE, e o reconhecimento das repúblicas separatistas pró-russas do Donbass, da República Popular de Donetsk e da República Popular de Luhansk.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), o papa Bento XV assumiu o papel de agente diplomático e desenvolveu uma intensa atividade nesse sentido, procurando encontrar soluções políticas para cessar as hostilidades. Inclusivamente até lançou a encíclica «Ad beatissimi apostolorum» para a paz e para o desarmamento. Falhou as constantes tentativas de mediação em que se envolveu, mas ficou na história como um papa diplomata. Há muito em jogo quanto a um possível conflito a grande escala na Europa, e, seguindo o pensamento e a acção daquele sucessor de Pedro, a melhor proposta diplomática para os beligerantes de ontem, de hoje e de amanhã, continua a ser «paz na terra aos homens de boa vontade». Caso contrário teremos outra vez névoas de guerra

FONTE ADV J. DANTAS RODRIGUES

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