Cultura

A língua portuguesa a deixar os PALOP

Um artigo de opinião assinado por Dantas Rodrigues, socio-partner da Dantas Rodrigues & Associados

Possivelmente, ninguém deu importância à recente entrevista que o escritor e advogado cabo-verdiano Germano Almeida concedeu ao ‘Plataforma’. Interessante e inquietante, veio confirmar aquilo que há muito já se sabe quanto aos riscos que corre a língua portuguesa de deixar de ser falada em Cabo Verde (e não só).

De facto, diz aquele galardoado com o último Prémio Camões (21 de maio de 2018) que, no seu país, «o português já está a ser ensinado nas escolas como língua segunda» e que «a língua, a vida em Cabo Verde decorre em crioulo».

Esta constatação, para mais proveniente de alguém que sabe do que fala, é deveras preocupante. E é-o, quanto mais não seja, por razões de consideração e respeito pela nossa língua e cultura no mundo, desde o século XV com o início dos Descobrimentos.

O desaparecimento da nossa língua em Cabo Verde em nada beneficiará aquele país insular, já que, num mundo cada vez mais globalizado, ninguém faz trocas comerciais, ninguém ‘faz’ o ERASMUS, ou ninguém resolve a mais pequena questão do foro internacional a falar crioulo. Dir-me-ão agora: mas há o inglês! E eu respondo: pois há, mas o inglês (ou qualquer outro idioma) sem sustentáculos educacionais, culturais e civilizacionais sólidos de nada servirá. A identidade e, naturalmente, a língua em que a sua cultura se respalda e expressa, são muito importantes para qualquer povo, como já Amílcar Cabral o havia observado: «a língua portuguesa foi a maior herança que os portugueses nos deixaram». E Amílcar Cabral tinha razão, já que, goste-se ou não se goste, a presença de Portugal naquele Arquipélago do Atlântico Norte estendeu-se de 1460 a 1975, o que significa 515 anos de língua e cultura portuguesas.

Mas parece que não é assim que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) vê o problema (ou os problemas) que, de alguns anos a esta parte, vêm ameaçando de morte a língua portuguesa no mundo. Até me pergunto se fará mesmo a mais pálida ideia do que se está passar, sem já falar da concorrência desleal que nos é movida pela França no tabuleiro geral do complexo xadrez africano e que, não há muito, culminou no desejo manifestado em Paris pelo atual presidente de Angola em aderir à Organização Internacional da Francofonia, desejo que recebeu o apoio imediato do seu homólogo francês, Emmanuel Macron.

O português está mesmo a desaparecer num continente onde a nossa presença foi constante ao longo de cinco séculos

Ligando o que se passou em Paris com João Lourenço ao que nos diz Germano, só se pode chegar a esta amarga conclusão: o português está mesmo a desaparecer num continente onde a nossa presença foi constante ao longo de cinco séculos. E esse desaparecimento, seja a favor da França, cujo idioma foram os nossos liceus os únicos a ensinar aos atuais quadros dos países que atualmente se querem livrar do português, seja a favor do crioulo ou de quaisquer outros particularismos de cor local, é, para além das importantes questões culturais acima levantadas, altamente lesivo dos nossos interesses económicos, a começar logo pela nossa perda de influência enquanto interlocutores privilegiados entre a África lusófona e a União Europeia.

A língua portuguesa, segundo números de 2017, é falada por 260 milhões de almas. O número é demasiado eloquente para não ser levado a sério pela CPLP

Acreditamos que em Cabo Verde, existe mesmo o risco de desaparecimento da língua portuguesa, por atualmente muitas famílias que nunca ouviram falar português, não posso deixar de recordar aqui Cesária Évora. A mundialmente conhecida ‘Diva dos Pés Descalços’, que até ao fim da sua existência recordava com saudade os barcos da Armada portuguesa onde havia iniciado a sua extraordinária carreira, cantava em crioulo, mas dava todas as suas entrevistas (e foram muitas!) em português, um português com uma cor muito própria, mas nem por isso desprovido de irresistível ‘charme’. Numa palavra: nunca renegou as suas origens nem, tão-pouco, esqueceu a língua de Camões.

E ter sempre presente aqueles a quem alguma coisa devemos constitui, para mim, o mais louvável respeito pelos valores civilizacionais e a mais nobre prova de boa educação.

FONTE Joaquim Dantas Rodrigues

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