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2019 vai ser duro, mas pode ser exaltante

Sem deixar de se preocupar com os bens públicos, com a redistribuição ou com a igualdade de oportunidades, este e o próximo Governo têm o dever de olhar para o novo país e dar-lhe gás.

A suspeita foi-se avolumando na segunda metade do ano e confirmou-se no último mês: Portugal entrou no período pós-pós-troika. Depois de cinco penosos anos a corrigir excessos da década em que Portugal foi juntamente com a Itália e o Haiti o país do mundo que menos cresceu, vivemos esta legislatura a cumprir o natural e saudável desejo do trabalhador exausto que relaxa com uma cerveja.

O fim de uma conjuntura internacional favorável, a degradação dos serviços públicos e a insatisfação social que deu lastro a uma inusitada vaga de greves despertaram o país para o princípio do fim de um ciclo. Não vai ser possível continuar a centrar o discurso político na devolução dos rendimentos à função pública, não vai ser possível continuar a falar apenas do que se distribui sem se pensar no que se cria, não vai ser possível continuar a acreditar numa solução política que se sustenta apenas na competição de saber quem dá mais.

A série de eleições que se anuncia vai ser um teste à responsabilidade dos partidos e à memória dos cidadãos. A provável série de revisões em baixa do crescimento ditará o regresso dos fantasmas do défice. A dimensão da dívida pública voltará a ser relembrada como uma ameaça. A necessidade de fazer reformas no aparelho do Estado entrará na ordem do dia. O dever de discutir os problemas dos mais jovens, dos trabalhadores com baixos salários nas indústrias sujeitas à concorrência nacional será imperativo.

Viver a indolência dos anos entre 1995 e 2009, o deixar andar despido de ambição e alimentado pelo crédito só será possível se os portugueses tiverem perdido de vez a memória. Tolerar a discriminação dos portugueses do interior ou a mais alta desigualdade da Europa só acontecerá se o país se deixar tolher pelo coro dos poderes organizados.

O próximo ano será duro, mas poderá ser também exaltante. O compasso de espera dos últimos quatro anos serviu para o país ganhar confiança, para respirar fundo. Chegou a hora de aproveitar essa energia e exigir mais. A sociedade portuguesa é hoje muito mais qualificada e cosmopolita do que era há meia dúzia de anos.

Sem deixar de se preocupar com os bens públicos, com a redistribuição ou com a igualdade de oportunidades, este e o próximo Governo têm o dever de olhar para o novo país e dar-lhe gás. É por isso que 2019 será um ano crucial. Que seja excelente para todos.

 

FONTE MANUEL CARVALHO PUBLICO.PT

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PUBLICO.PT
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